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domingo, 27 de maio de 2012

Portugal: Queima das Fitas - Serenata

Há cerca de três semanas estava acontecendo aqui em Porto a famosa QUEIMA DAS FITAS. Essa festa carrega o peso de ser chamada de melhor e maior festa universitária da EUROPA. Para quem é intercambista é bem difícil entender o significado de tudo que se passa nessa semana, já que há festa toda noite e férias da faculdade ao mesmo tempo... tem que rolar uma concentração para acompanhar tudo que eles fazem!

A história da queima é bem longa, e advém da "Festa da Pasta", iniciada no Porto em 1920 por estudantes de Medicina, e em Coimbra um pouco antes, em 1918. Antigamente, a festa representava a despedida dos finalistas, que passavam suas pastas (uma pasta que carregam e que faz parte também do traje) aos que estavam no penultimo ano de faculdade, rumo ao último. Hoje ela celebra dois momentos: a primeira vez que os caloiros vestem o traje (tão polêmico e que eu expliquei aqui) e o último semestre dos veteranos que se formam em julho. Ou seja, é a maior concentração de pessoas trajadas por metro quadrado que todos têm a oportunidade de ver! Além dos caloiros e doutores finalistas, tem muito, muito, muito pai e mãe de família vestindo a capa de novo e indo para as cerimônias.

Eu já disse em outro post o quanto eles levam isso tudo a sério, e realmente, eu me assustei quando me dei conta de que essa foi a ÚNICA coisa que parou a cidade durante o tempo em que eu estou aqui. Natal? Blé... Ano novo? Blé... Carnaval? Blé... Porto campeão nacional? máromenoss.. mas na queima, meu Deus! A cidade toda parou mesmo, foi impressionante!

Como eu ainda não tinha ido visitar Coimbra, achei que seria uma boa ir lá durante a queima, já que a de lá começava antes da de Porto e poxa, é A cidade universitária de Portugal, né. Esse aqui foi o vídeo promocional, ó:



Bom, fui com mais alguns amigos e a expectativa estava lá em cima, mesmo não sabendo bem como funcionava.  Na noite da serenata é também quando os caloiros vestem o traje pela primeira vez e têm suas capas traçadas. Explico: quando se veste o traje à noite, a capa sempre tem de estar escondendo qualquer parte branca da roupa que o universitário esteja usando, mas para podertraçar sua capa, claro, tem todo um protocolo, a la vida portuguesa mesmo.

Abaixo está a primeira imagem que vimos ao chegar na Sé Velha, praça onde acontece a Serenata. Isso é só o que dava prara mostrar, pois toooodas as ruazinhas que davam nessa praça estavam completamente lotadas e intransitáveis.

foto de Giuliana Ananias Wolf
Praça da Sé em Coimbra na Queima das Fitas de 2012 - 1º dia: Serenata





































 Aviso para quem um dia pensa em ver a queima: a serenata acontece sempre na primeira noite e, não há agitação, todo mundo vai para ficar quietinho ouvindo FADO. Se você já conhece o fado, já percebeu qual a vibe da coisa. Se não, dá um play nesse vídeo e vai entender exatamente como é. Aí, você junta essa música com o sentimento de estar acabando a faculdade. É como se fosse uma festa de formatura que dura para sempre hahaha nunca ví gostarem tanto de sofrer com despedidas como nessa noite... 


Na segunda noite da queima de Coimbra, fomos à festa propriamente. A festa acontecia no "queimódromo" e é um misto de Rodeio (só que sem os tourinhos e peões) com as festas dos jogos universitários. Não falta bebida, gente nova e música. Lá em Coimbra teve o show do REVELAÇÃOOO (muuuito bom, btw), PLUS vááárias tendas com todos os tipos de música. Em cada tenda tinha também um tipo de bebida. Recadinho para a organização: ano que vem vocês podiam colocar mais do que só uma barraca com shots, né!

foto de Giuliana Ananias Wolf
Uma das tendas na Queima de Coimbra


















 

O queimódromo teve nossa companhia até as 6 da manhã, quando já tinha acabado tudo mesmo e viemos para Porto direto. No mesmo dia ainda tínhamos que ir à queima daqui! Não encontrei os números de Coimbra, mas aqui a festa movimenta cerca de 350.000 estudantes (!!!!!), de acordo com a Federação Acadêmica do Porto. Olha só umas coisas que eu registrei durante a primeira noite: 

foto de Giuliana Ananias Wolf



+ Reparem que nesse vídeo aqui em cima, logo no comço, nenhum dos trajados tem a capa traçada...

Bom, essas imagens e vídeos foram feitos na Praça dos Leões, local onde está a Reitoria da Universidade do Porto. Na verdade, todos chamam alí de Piolho, pois há também um bar com esse nome que se tornou "legendary". Prometo post sobre ele ainda! Dá para ver no vídeo a agitação que acontecia no dia, né? Depois disso tudo, fomos para o queimódromo. Aqui é bem diferente de Coimbra, pois ao invés de tendas, há barraquinhas de toooodos os cursos das universidades aqui de Porto.  Quem monta, trabalha e toca o negócio são todos estudantes. O legal (ou confuso) é que cada uma delas toca uma música diferente e extremamente alta, ao mesmo tempo! E todoas estão coladinhas, então depois de umas biritas, o negócio vai ficando difícil... é gente que chega em casa e não reconhece a mãe, gente que não sabe como voltou para casa, gente que se perde, gente que faz xixi no lugar errado e por aí vai...

queima das fitas porto
Barraquinhas na queima (imagem de www.fap.pt)











Até aqui, só falei da primeira noite da queima das fitas, imaginem que ainda há outas cinco noites! Vou fazer uma série de posts explicando cada uma delas e o porquê de tudo. Até a próxima =)

Beijos, Giu!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Porto: Caloiros Praxados, Doutores Trajados e a Tuna!

Sei que está quase no fim do semestre, mas ainda dá tempo de falar sobre algo que é tão importante aqui no Porto. Aqui, o trote, diferente do Brasil, dura quase dois semestres e leva o nome de "praxe". Tudo é muito diferente e extremamente levado a sério. 

Em Porto eu estudo na Universidade Fernando Pessoa e logo nos primeiros dias, fui ver a praxe que estava acontecendo no campus, e aí ví o discurso um dos veteranos aos caloiros. Em um trecho ele disse: "Antes de querer conhecer os que estão de preto, preocupem-se em conhecer os que estão ao seu lado, pois estes é que seguirão com vocês na faculdade.". 

foto de Giuliana Ananias Wolf
Praxe em Setembro de 2011 na Universidade Fernando Pessoa




















Os "de preto" são os veteranos, e essa foto ilustra o porquê de eles serem chamados assim. Eles têm de se vestir com tipo um traje social (camisa branca, calça preta social, paletó - para os homens - e para as meninas, o mesmo, a diferença é que usam saia + meia-calça.), MAIS uma capa preta, que trás junto consigo muitas, muitas regras. Vou tentar colocar aqui algumas que eu já aprendi: 

1) ELA NUNCA DEVE SER LAVADA, NEM DURANTE, NEM APÓS A FACULDADE. NUNCA;
2) À noite, a capa deve estar traçada, para que fique impossível de se ver qualquer pedaço branco do traje;
3) Quando se está com a capa, não se usa guarda-chuva; 
4) Se você quer usar o traje um dia, tem que participar da praxe; Se quer praticar os "trotes", tem de a estar trajando;
5) Como dá pra ver pela na foto, essa capa é bem longa! E aí, como aqui em Portugal essa coisa de hierarquia é MUITO importante (e faz-se questão de mostrar isso a todo tempo), eles acharam um jeito também de mostrar o quão veteranos são: se a pessoa está na faculdade há um ano, pode dar uma volta na capa, se está há dois anos, duas voltas, e a ssim sucessivamente;
6) Depois de se tornar dourtor, pode-se usar a capa sem o traje por baixo. Assim, mais descontraído sabe, tipo jeans e capa;
+ Alguém sabe de mais outras? :)

foto de Giuliana Ananias Wolf
1ª Foto: Doutores à espera dos caloiros na FEUP (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto); 2ª: doutores em Coimbra na Universidade de Direito, posando para foto; 3ª: "sujeirinha" na capa do senhor doutor aí. Vai saber desde quando...


























E aí, rola toda uma dedicação. O legal é que tanto os doutores, quando os caloiros têm muito trabalho. Seja domingo com chuva, seja tarde ensolarada, eles estão lá, fazendo o que têm de fazer. Tem um respeito enorme que começa quando o caloiro não tem permissão de olhar nos olhos dos doutores, além disso, têm de carregar na bolsa uma camiseta que lhes foi entregue no começo do semestre (nela está o novo nome do bixo/bixete + o curso que está fazendo) e vestí-la sempre que mandarem. Logo no início do semestre passado, ví caloiros pedindo permissão para sair do campus para almoçar, e os que não pediam, eram questionados. 

Existe também outro tipo de praxe: aquela à quem quer pertencer à Tuna. Explico: tuna é tipo um coral que cada curso tem. Eles cantam, dançam participam de festivais competindo entre sí. Uma mistura de fado com o espírito acadêmico. Eu sempre imagino tipo um Glee português! <3 (Que ninguém de qualquer tuna leia isso hahaha)

doutores na feup 2011
Apresentações de Tunas

 Esse vídeo aqui embaixo eu fiz logo quando cheguei, era a Tuna de alguma faculdade (sorry, na época não pensei que colocaria isso em um blog...). Eles estão cantando e tocando, as capas estão ao chão (nunca lavarás tua capa, lembra-se?). Com certeza tudo isto estava bem organizado pelos caloiros, que, quando pretendem participar da Tuna, têm de fazer todo o trabalho de limpar, carregar e afinar os instrumentos, além de ensaiar. Aqui, a praxe pode durar até três anos, até que o caloiro se torne um "tuno". O engraçado é que às vezes (e na maioria delas), a pessoa já não é caloiro, mas na tuna ainda atua como se fosse, ou seja, é muito mais difícil entrar lá!




Esse segundo vídeo é da última apresentação que eu ví. Achei o máximo, era tipo um festival e várias tunas se apresentaram lá. Detalhe: os de chapéu e bengala são todos os que se formam ao final deste semestre. A cor da cartola varia de acordo com a cor do curso, assim como a da bengala. A tradição diz que quem se forma tem que levar quantas bengaladas quiser, e pode ir escolhendo os amigos, parentes, professores, ou seja, qualquer pessoa que tenha sido importante de alguma maneira. Tudo isso para dar sorte <3 Legal, né? 

Curiosidade: Porto é cheio de lendas, uma delas é que o traje usado para a série de filmes "Harry Potter" tenha sido inspirada no que os universitários usam cá, já que a autora dos livros morou aqui em Porto por muito tempo e é casada com um português.

+ Assim como no Brasil, onde existe quem se diverte com os trotes, mas existem também os que não aprovam nada, aqui em Portugal muita gente não é a favor da praxe ou do traje. O que faz surgir apelidinhos carinhosos aos doutores, como "morcegos", "harry potters", "da capa"... e por aí vai! 

Espero que tenham gostado de conhecer um pouco disso, porque isso tudo aqui é a própria essência do que é ser universitário em Porto!

Beijos, Giu

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